Filme “Nova Terra” propõe um sertão entre o real e o encantado
O cinema produzido no interior do Ceará ganha novos contornos estéticos e narrativos com o longa-metragem “Nova Terra”, dirigido pelo cineasta Fram Paulo, que entra em sua etapa final de finalização após ser contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). Mais do que uma obra sobre o Sertão Central do Ceará, o filme se propõe como uma experiência sensorial que tensiona as fronteiras entre realidade e mito, teatro e cinema, história e imaginação.
Distanciando-se de uma abordagem tradicional de narrativa linear, “Nova Terra” constrói uma linguagem própria ao integrar elementos performáticos, poesia e uma forte dimensão simbólica do território. Para o diretor, o desafio central foi transformar o espaço em uma presença viva dentro da dramaturgia.
“O sertão não é um vazio. Ele respira, ensina, guarda memórias e revela forças invisíveis a quem sabe escutar. Sempre digo que o sertão é um universo e há o sertão dentro e fora de mim”, afirma Fram Paulo. “No filme, ele deixa de ser pano de fundo e passa a agir diretamente sobre os personagens, conduzindo conflitos e transformações.”
A narrativa acompanha sete jovens artistas de teatro que se isolam no Semiárido para montar um espetáculo. No entanto, o processo criativo do grupo acaba atravessado por forças que extrapolam o campo artístico, levando-os a uma imersão em camadas profundas do território.
Essa relação entre teatro e cinema não é apenas temática, mas estrutural. A formação cênica do diretor influencia diretamente a construção estética do longa, que valoriza o corpo, a palavra e a presença dos atores em diálogo com a paisagem.
Filmado em locações como Senador Pompeu e Quixeramobim, no interior cearense, o longa também mergulha em referências reais do Sertão Central, como a Pedra do Letreiro e a mística da Serra do Encantado. No entanto, esses elementos são ressignificados dentro de uma lógica simbólica que articula o que o diretor define como “Sertão Visível” e “Sertão Invisível”.
Esse equilíbrio entre pesquisa e criação foi um dos pontos mais delicados do projeto. Ao lidar com referências aos povos originários, Fram Paulo optou por uma abordagem que reconhece os limites da documentação histórica e valoriza a tradição oral como ferramenta de reconstrução simbólica.
Outro aspecto que ganha relevância nesta etapa final é a inclusão de recursos de acessibilidade, como audiodescrição e legendagem descritiva — um processo que, segundo o diretor, tem provocado uma revisão profunda da própria obra.
Com duração de 70 minutos, “Nova Terra” também dialoga com questões contemporâneas ao abordar temas como crise ambiental, escassez de água e preservação das sementes crioulas, tratados no filme como símbolos de continuidade e futuro.
A previsão é que o filme seja lançado no segundo semestre, iniciando sua circulação pelo próprio Sertão Central antes de alcançar outros territórios. A escolha reforça o compromisso do projeto com o lugar de origem — não apenas como cenário, mas como fonte de sentido.
Mais do que um longa-metragem, “Nova Terra” se apresenta como uma obra que tensiona linguagens e propõe um novo olhar sobre o Semiárido, onde arte, natureza e imaginação se entrelaçam na construção de um cinema profundamente autoral.




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